Art is perfectly useless, according to Oscar Wilde, who was right about everything. He also told us that all bad poetry is sincere. Had I the power to do so, I would command that these words be engraved above every gate at every university, so that each student might ponder the splendor of the insight.

[Harold Bloom]

sábado, 24 de outubro de 2009

Poema a um Mestre



Era semente e te vi, raio de sol,
a bater e obrigar-me: acorda.
Abri meus olhos e te percebi melhor
Eras meu pai, meu irmão, meu amor.

Com coragem doada pela terra,
Mãe, base e fonte, me levantei.
Frente a frente você me teve,
Frente a frente você me olhou.

De cada brisa da noite senti o prazer
E a dor proibidos às plantas novas
E virgens.

Das estrelas eu vi cada segredo,
A lua me sussurrou seus versos,
A grama me contou as lendas do mundo,
As pedras, as tristezas dos homens.

Mas eu não era homem, eu era planta,
Eu era folha, caule, raiz.

E depois de cada noite de segredos,
você surgia.
Eu nunca soube o que fazer quando te via.
Se me escondia, se me mostrava,
Você me enfeitiçava, eu me perdia.

Você me vigiou, alto e altivo,
Cada passo meu, e cada abalo,
Cada crise, cada crescimento.

Lancei raízes mais profundas,
Sofri mordidas mais intensas,
Sofri as secas, as chuvas,
Os ventos e as tempestades,
Para ver depois você, minha Luz.

E devagar, com medo até,
lancei aos teus pés tudo o que tinha.
Sem confiar ou pensar na dúvida,
Doei a ti o que tinha de melhor, meu... deus.

Me fiz botão.

E tua luz não se escondeu nenhum instante,
Pois que meu botão nasceu na primavera,
Era a primeira verdade que você me ensinava.

Tua luz me deu força,
Me deu coragem,
E a terra me deu tudo o que precisei.
Nunca, nunca eu poderia tirar meus pés da terra.
Mas algo de mim, com os ventos, teria de alcançar você,
para assim te contar do meu amor.

Me dobrando e me abrindo a ti,
Me dando mais a conhecer à tua onisciência,
Abri-me em flor branca, de branco perfume puro,
E lhe roguei, aos pés, condescendência.

Família - ê!

A prima que puxa a orelha da avó
Que brinca, que chora, que grita.
A tia que implica e empaca sem dó
O menino, pequeno, mimado, faz fita.

Era uma vez família perfeita.
Não, nunca houve, nem nas histórias.
E a perfeita nenhuma nunca é eleita, e
Faz parte das velhas memórias.

O primo bonito, o tio meio torto,
O avô que contava histórias tá morto.
A filha arrumada, vaidosa, lindinha
Tem uma orelha que é meio caída,
Que sob o cabelo alisado, tingido,
Passa quase que despercebida.

No fim da história não gosto, não quero,
Não chego perto e retiro da vida,
Mas dentro do abraço dos tios e da prima,
Só posso cantar: família querida.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Aroma doce da rosa branca
Em céu malhado de cinza
Porta de vidro sem tranca
Em casa vazia.

Relógia atrasado, por falta de bateria.
Última página, faltando um pedaço,
Que nem nos importaria.

Prédio vazio, sem morador,
Com guardas na portaria.
Velha sem netos, sem roupas novas,
Sem clientes, que sempre fia.

Roupa lavada, guardada, esquecida,
Cheiro de ontem, de omo, de amor.
Pétalas velhas das flores jogadas
Atrás da cortina, pro melhor ator.

Cartas não lidas, mas bem jogadas,
Astros que apontam a falha da sorte
Cada detalhe despercebido
São intermitências da morte.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

2016


É minha obrigação
Pedir perdão
Antecipadamente
Por descrever
A situação
Despoética da gente.

Ó, meu cidadão,
Valha-me Deus,
Me empreste teu ouvido.
Que quem não
Junta as letras
Não faz nada ter sentido.

Mais da grande parte
Da população
Só escreve o próprio nome
Ê, entende então
Por que razão
Tanto se morre de fome.

Ai, nessa nação
Cada mentira
Já nasce perdoada
E quem diz que não
No coração
Sabe que não disse nada.

Cada escola aqui
Tem mil lugares
E só tem cem estudantes
E não tem princípio
A sofridão
Da nação já nasceu antes

Mas ai, não chores não
E nem desiste,
Que no nosso mundo,
Morre chorando,
Até quem não nasce triste.

Vem, grita comigo,
Pede motivo,
Implora algum sentido.
E mesmo
Sem entender mais,
Entra no coro,
Viva os jogos mundiais!

E mesmo
Sem entender mais,
Entra no coro,
Ai, grita comigo,
Deixe as letras para trás,
Vem, com a multidão,
Sem ter razão,
Viva os jogos mundiais!

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Chá da tarde




Eu respirava o ar da tua boca
Você nunca notava e me perdia
E me batia e se perdia me atirava
E se atirava eu me escondia e me chorava

E a flecha embebida de veneno
Que perfurava, me furava e atravessava
Era ainda incômodo pequeno
E eu ainda me feria e porque amava

Eu perseguia tuas pegadas num terreno
De cacos de vidro ensaguentados
Mas mesmo meu temor era pequeno
O sangue era expurgar os teus pecados
Com meus pés, teu alívio ameno,
Era o vermelho a cor do ser amado

Sob um lençol de estiletes revirados
Me mexia em completo pesadelo
E teu sonho leve era um grande desespero
Para o meu interior, tão desvelado

Você já conhecia cada parte
Cada linha, cada sombra, cada pelo
E teus cílios de água viva, em meus anelos
São meus amores, os meus beijos a queimar-te.

Você me foge, e me ficam as lembranças
Queimaduras no meu corpo de criança
Cada espelho que me tem reflete meu horror
E eu me olho,
no meu banho,
vermelho,
águas de amor.

E eu me olho,
no meu banho,
vermelho,
águas de amor.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

cadafalso



Força a poesia
Como quem força um filho
Com o corpo todo
Dos pés à alma.

Deixa-se doer e machucar
Deixa sair teu sangue com tua cria
Deixa que te mutile teu poder criador
Em nome da criatura que pode te matar

A dor do parto é a dor da morte
Porque é vida que se dá
É a luz, e não só à luz que se dá.

Então força a poesia com teu suor, tua lágrima, teu sangue e teu sêmen.
E deixa que ela escorra de ti, que ela socorra de ti, que ela corra de ti.
Que ela exploda de ti.

Permite que o teu cansaço seja a energia dela
A poesia não pede amor, nem sentimento algum.
Ela quer tuas letras, tua tinta e tua alma.
Não pensa nos teus gostares, pensa nos teus poderes.

Dá a ela o que ela quer, como a um monstro e a uma mãe.
Nega a ela o que não queres dar, como a um cão e a uma filha.

Pari tua patricida
Chora teu reflorescer
Esconde os olhos da feiura do recém nascido
Lava tua poesia, limpa-a, e então sorri e a afaga enquanto ela te morde.
E depois, se for bela, agradece-te a tua competência.
Por que de tudo o que se fez, só a beleza dela importa.
O que se perdeu, o que se deu, o que lhe foi roubado, nada é teu.
Só a beleza dela importa.

É teu o poder, ela é tua criatura e tende a crescer e dominar-te
Tende a crescer e devorar-te
Tende a fazer de tudo, a devorar tudo, a transformar tudo
Em pureza, em brilho, em som, em parte
Tende a fazer de tudo grão, poeira, vento, tende a calar-te.
E deseja mais que à vida, tua vida, deseja mais a arte.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009


Meu mundo não é esse de fora das capas.
É o de dentro, mas não é o das letras,
É o de dentro.
Mas de dentro mesmo.